Quando eu era criança eu tive um papagaio, que nunca falou, mas eu gostava dele… Quando ele morreu meu pai enterrou ele no jardim, não entendi porque, mas aceitei.
Alguns anos depois tive um cachorro, “Bob”, quando ele ficou doente minha mãe mandou ele para a casa dos meus avós para se curar, ele nunca mais voltou.
Depois tive três gatos, a Tininha (que era um macho), o Cabeção (a cabeça era realmente desproporcional e ele vivia preso por ela nos lugares) e o Azulão (que na verdade era cinza e também era mudo, ele abria a boca e era possível ler seus lábios dizendo MIAU, mas nunca se ouvia nenhum som, acho que ele pensava que falava), dois desapareceram e um foi sacrificado, me lembro até hoje da minha tristeza ao ver os últimos momentos da Tininha, ela também foi enterrada no jardim.
Quando me disseram na escola que depois que a gente morre e é enterrado, a carne apodrece e ficam os ossos, me dediquei durante muito tempo a escavações no jardim para achar os restos dos meus animaizinhos… Queria guarda-los comigo, acreditava que o Papagaio estava enterrado embaixo dos Girassóis e o Gato junto as Margaridas.
Algum tempo depois, o meu avô, grande contador de historias e uma das melhores pessoas que já conheci, foi morar um tempo na minha casa entre suas idas e vindas do hospital, ele também morreu e também foi enterrado, mas infelizmente não no meu jardim.
Depois daquele dia nunca mais procurei pelos ossos dos meus animaizinhos e durante muito tempo fui ao cemitério na esperança que houvesse uma grande árvore sobre o tumulo de meu avô, como um carvalho, mas nunca nenhuma cresceu por lá
A morte continua um mistério pra mim…
Já perdi outros animaizinhos, amigos, familiares, pacientes, acompanhei a dor de quem perde… Vi os aparelhos sendo desligados, os olhos sendo fechados, o lençol sendo esticado, o corpo sendo preparado, colocado numa gaveta, na geladeira, no caixão, no carro da funerária.
Aprendi a respeitar a morte, mas não sei se a compreendo, talvez me falte uma crença ou a sabedoria que talvez conquistarei com o tempo…
Continuo acreditando que o jardim seja um bom lugar para enterrar nossos mortos, entre as flores, entre as arvores, entre as ervas-daninhas que crescem e representam tanto o seu oposto… A vida!
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