Lapsos…

 
 
 
  • Receba por e-mail

    Digite seu e-mail:

  • Sobre

    “É curioso como não sei dizer quem sou. Quer dizer, sei-o bem, mas não posso dizer. Sobretudo tenho medo de dizer porque no momento em que tento falar não só não exprimo o que sinto como o que sinto se transforma lentamente no que eu digo.” (Clarice Lispector)
 
Cadeira Falante por GeSa em 26 de Janeiro de 2006

Deitada em meu quarto naquela horinha boa em que a gente acorda e fica de preguiça, ouço minha mãe falar da cozinha:
- Droga, sentei justo na cadeira falante!
Imediatamente pulei da cama e corri pra cozinha, intrigada com o comentário fui logo perguntando:
- Ué? Cadeira que fala??
E ela respondeu:
- É, fala! Quer ver?! Olha só…
Sacudiu-se então lentamente na cadeira e a danadinha respondeu:
- Nhéco-treck, nhék-nhék!!

Na Praia por GeSa em 21 de Janeiro de 2006
Dia desses, no meio da semana fui a praia com meu sobrinho.
Não demorou muito para que ele começasse a pedir dezenas de coisas, lá pelas tantas como não iria mesmo conseguir ler o meu livro, decidi entrar na dança e me divertir com o pequeno.
Fizemos um buraco na areia, ele se deitou e eu o enterrei até o pescoço… Após, ele ficou insistindo para me enterrar também, como já estava toda suja de areia, sem medo do ridiculo, permiti.
Foi uma experiencia muito estranha, fiquei totalmente imobilizada, com areia por todos os lados e até estava gostando.
Até que em minha direção veio uma criança arrastando o pai pelo braço, de pé na minha frente, a criancinha falou:
- Pai, essa é a Psicologa que eu tô indo com a mãe!
Na hora eu me senti patética, tentando levantar fui logo falando bom dia, tudo bem… e antes mesmo que conseguisse me livrar por completo da areia para apertar a mão do senhor e dar uma beijoca na criança, o pai já foi se despedindo e dizendo que estava com pressa.
Na saída deu pra ouvir ele dizendo pro filho:
- Eu falei pra tua mãe que Psicólogo é coisa de doido!
Acho que não verei mais eles, o que é uma pena, já que este Pai teria muito a aprender com seu filho se se permitisse largar a máscara de respeitavel e se entregar aos prazeres das brincadeiras das crianças!
Adeus Marli por GeSa em 16 de Janeiro de 2006
Existem pessoas que exalam alegria, é assim que era Marli
Durante a noite não consegui chorar, fazia silêncio dentro do meu peito
Mas era Lua Cheia e ela amava isso…
Assim como amava os animais, a familia, cozinhar, praia, livros, vinho, perfume, musica, academia, carnaval, amigos, conversa fiada…
Nunca teve filhos, nem casou - não por falta de pretendentes, mas por achar que isso não era para ela - Marli nasceu borboleta de asas coloridas e compridas, jamais se deixou aprisionar… Era autentica demais.
Depois a noite se foi e veio um dia lindo, quente, de sol forte, céu azul e sem nuvens
Enquanto o padre falava palavras que não me diziam nada, olhei mais uma vez pra ela deitada entre as flores e achei que tudo aquilo não fazia sentido…
Senti uma leve brisa vinda de lugar nenhum e me lembrei da sua gargalhada gostosa e percebi que ela estava serena com o esboço do que parecia ser um sorriso e só então pude chorar
Vai ser dificil voltar sem ela, mas todo o resto continua e eu também continuarei
Foram apenas 45 anos, dos quais convivi quase diariamente por 6… Era uma amizade tranquila, as vezes eu me impacientava com ela, mas sempre a admirei, porém nunca disse o quanto gostava dela… Ela devia saber, Marli sempre sabia…
Um dia ela me disse que as coisas boas da vida eram efemeres, hoje eu completaria: assim como você minha amiga.

Dois por GeSa em 14 de Janeiro de 2006

Deitados numa cama de solteiro
Ele grande, tímido, contido
Ela pequena, faladeira, espaçosa
Enquanto ele assistia um filme, ela lia um livro
Às vezes quebravam o silêncio com comentários que pouco sentido faziam para o outro
Estavam mergulhados em mundos diferentes, porém muito próximos
O sentimento que os unia não exigia palavras, permitia a diferença, o silêncio…
Era como se sendo Dois formassem Um, e além do Um, formassem o Completo e ainda mais, o Infinito.

Lembranças de uma infância não tão distante por GeSa em 9 de Janeiro de 2006
Lembro-me das guerras de cócegas com meu irmão, do cuidado dele comigo, e como não poderia deixar de faltar, das brigas.
Dele me levando e buscando na escola, de ser arrastada dentro de uma caixa de papelão pelo gramado, da voz disfarçada de papai-noel jogando balas pela janela!
Lembro da falta de tempo da minha mãe e da sua preocupação com o trabalho… Mas também lembro das gargalhadas, dos penteados em meus cabelos, das noites de febre em que ela dormia no meu quarto.
Lembro da cara feia do meu pai quando eu fazia alguma coisa errada, e de como esse olhar de reprovação me feria… Mas também me lembro da morte de meus animaizinhos de estimação e desse mesmo pai enterrado-os no jardim e semeando flores em seus túmulos: girassol para o papagaio, margaridas para os gatos, onze horas para o cachorro… da explicação de que a vida era apenas um ciclo, que só morria quem um dia já viveu e foi feliz.
Lembro-me dos verões na praia onde fazia todos ficarem na água comigo até meus dedinhos murcharem, dos invernos em casa vendo tv e comendo pipoca que era milimetricamente dividida em quatro recipientes iguais para evitar as brigas.
Eu a definiria como uma infância feliz, muito feliz! O estranho é que apenas agora, hoje, aqui, neste momento enquanto escrevo é que pude perceber isso